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O caminho da economia verde passa pelo campo

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No pós-pandemia, o mundo terá a oportunidade de incorporar questões ambientais e sociais na recuperação das economias. A agricultura será uma grande protagonista nesse processo

Por Christian Lohbauer


4,0 milhões de mortes, aumento de 20 trilhões de dólares nas dívidas dos países, milhões de pessoas com fome. Poucas vezes o mundo se viu diante de uma crise tão dramática e profunda. A pandemia da Covid-19 tem muito a ver com isso, mas não é a única responsável por esses números, especialmente no que diz respeito à fome. As estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que mais de 10% da população mundial já vivia em situação de insegurança alimentar antes do surgimento do novo coronavírus. O que a doença fez foi engrossar a estatística dos famintos. Não há números exatos, mas a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), calcula que, atualmente, 270 milhões de pessoas não têm o que comer.

Grande abalo nas economias

Já no início de 2020, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, anunciava que o coronavírus não era uma apenas um problema de saúde, mas também um perigo para a economia mundial.

A gravidade do problema está expressa no relatório do Fórum Econômico Mundial (FMI) que relaciona o grau do endividamento das nações com seus Produtos Internos Brutos (PIB). A dívida acumulada pelo Japão, por exemplo, já equivale a 213% do PIB. A da Grécia supera 200%; Estados Unidos, 133.64%; e Brasil 102.76%.

O Banco Mundial, avalia que um endividamento “saudável” não deve superar 77% do PIB e os economistas afirmam que, para sair desse buraco, será preciso uma ação global coordenada.

Uma nova jornada

Além do estabelecimento de um intrincado sistema de financiamento internacional que, de imediato, atenderia as necessidades básicas da população, no médio prazo, a recomendação é repensar tudo.

O relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), divulgado em março desse ano, aponta alguns caminhos para a recuperação da economia dos países que formam o bloco. “Propõe-se integrar medidas de liquidez e de redução da dívida a uma estratégia de financiamento para o desenvolvimento voltada para construir um futuro melhor”, diz o texto. Para a entidade, este é o momento perfeito para alcançar um amplo consenso social e político que permita implementar reformas ambiciosas e empreender um processo de reconstrução sustentável e igualitário.

Para muitos especialistas, é a hora de pavimentar o caminho para a chamada Economia Verde. Uma discussão que pode ser nova para muitos países. No entanto, se o plano é de ampliar essa jornada sustentável, o agronegócio brasileiro já percorreu grande parte do caminho.

Equação complexa

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) define Economia Verde como a que “resulta em melhoria do bem-estar da humanidade e igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz os riscos ambientais e a escassez ecológica”.

Os pilares básicos desse modelo estão calcados na baixa emissão de carbono, eficiência no uso de recursos e inclusão social. No entanto, suprir as necessidades da população sem esgotar os recursos naturais, desacelerando as mudanças climáticas e incluindo a igualdade social na pauta de governos e empresas, só será possível com o engajamento de toda a sociedade e inovação tecnológica. E é consenso que agricultura e alimentação estão no centro dessa agenda mundial. Nesse cenário, o Brasil, uma das maiores potências agrícolas do planeta, tem tudo para sair na frente na construção dessa nova economia.

Sem recursos naturais não se faz agricultura

Pela própria natureza da atividade, a agricultura depende dos recursos naturais. Terra fértil e água são imprescindíveis para os cultivos, portanto, é de total interesse do agricultor profissional conservar esses recursos. O desenvolvimento e a adoção de tecnologia no campo são fundamentais para a sustentabilidade da agricultura. O que, sem dúvida, não é nenhuma novidade nas fazendas brasileiras.

Para se ter ideia, o vertiginoso crescimento de 360% da produção agrícola nacional, nos últimos quarenta anos, se deu com um aumento de área plantada de apenas 56%. Ou seja, o que cresceu de fato foi a produtividade, aquilo que se colhe numa mesma área.

Inovação é essencial para a sustentabilidade

A oferta e a adoção de tecnologias inovadoras foram fundamentais para que o Brasil se transformasse numa das maiores potências agrícolas do planeta. De fato, o apetite por inovação no campo é a grande chave para explicar como se pode equacionar uma agricultura pujante usando apenas 8% do território nacional.

Com o melhoramento genético e a biotecnologia, os produtores rurais passaram a ter acesso a plantas mais adaptadas às adversidades ambientais, às pragas e doenças e, consequentemente entregando maior produtividade. Ainda assim, não se aumenta produção sem proteger as plantas de insetos, fungos, vírus e bactérias que podem destruir as lavouras. Segundo a FAO, o mundo perde entre 20 e 40% de todo o alimento que produz, justamente pela falta de controle de pragas e doenças. Ou seja, os defensivos agrícolas (químicos e biológicos) são essenciais para a segurança alimentar.

Certamente, sempre é possível se fazer melhor. Combater o desmatamento ilegal, implantar políticas públicas de incentivo à adoção de práticas conservacionistas e energia renovável, melhorar a infraestrutura de transporte e armazenamento – para reduzir desperdícios – estão entre os desafios que o Brasil precisa superar.

Mas é inegável que um país que tem 66% de seu território coberto por vegetação nativa, 25% dele dentro de propriedades rurais, onde o agronegócio gera 1 de cada 3 empregos, caminha a passos largos para uma economia cada vez mais verde.

*Christian Lohbauer é presidente executivo da CropLife Brasil

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