Notícia

Uma liderança adaptativa como o “novo normal” nas empresas.

A gestão da pandemia sob a ótica científica e cultural na Europa e no Brasil

No dia 15 de março de 2022, o Instituto Di Blasi, Parente em conjunto com a Escola de Negócios da Fundação Dom Cabral organizou um encontro virtual para debater sobre a gestão da pandemia sob a ótica científica e cultural nas diversas jurisdições. O evento trouxe reflexões relevantes em um momento crítico, quando as empresas ensaiam a retomada do trabalho presencial no Brasil e a Alemanha ensaia o “Freedom Day”, o Dia da Liberdade numa tradução literal, no dia 20 de março, que pretende anunciar o fim das restrições sanitárias adotadas para combater a pandemia de Covid-19.

O debate contou com a participação da renomada pneumologista, pioneira no atendimento de COVID-19 e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Margareth Dalcolmo, do professor e pesquisador da Fundação Dom Cabral nas áreas de Liderança, Desenvolvimento Organizacional e Neurogestão Paulo Almeida, e da doutora e mestre pela Universidade de Munique, na Alemanha, e coordenadora acadêmica do Instituto Brasileiro de Propriedade Intelectual (IBPI), Karin Grau Kuntz. A moderadora foi a head de Relações Institucionais e Governamentais do escritório Di Blasi, Parente & Associados, Raquel Araújo.

Raquel mora na Noruega e relatou que país nórdico é considerado como uma das melhores gestões da pandemia, com um dos menores números de casos na Europa vítimas da Covid-19, totalizando 1775 mortes desde o início da crise e com 1778 casos de internação na UTI. Noruega tem cinco milhões de habitantes e mais de 93% da população adulta vacinada com as duas doses.

Karin Grau apresentou os dados da Alemanha onde 70% das mortes de covid-19 no país foram de pessoas acima de 80 anos e com comorbidades. Em março de 2022, a taxa média é de cerca de 200 mortes por dia com quase 200 mil novos casos diários de contaminação, onde a maior incidência atual é entre crianças até 14 anos que levam o vírus para dentro de casa. Na opinião da coordenadora acadêmica do IBPI, essa conjuntura caracterizaria um novo pico no país, justo na véspera de o governo decretar o “Freedom Day” para derrubar todas as medidas de restrição e segurança sanitária no país, previsto para o dia 20 de março. A conclusão da jurista é a favor da ciência. Para ela os dados mostram que as duas doses da vacina não protegem 100% contra contaminação, mas protegem bem contra a internação.

Conclusão semelhante teve a pesquisadora da Fiocruz. Margareth Dalcomo disse que a cepa Gama deixou evidente que ninguém mais tinha imunidade sete meses após o primeiro pico de contaminação, o que comprovou que a estratégia da retórica governamental de que todos deveriam ser contaminados para promover uma imunização em massa não foi eficiente. Para a pneumologista, não há dúvida de que a grande solução para as viroses de transmissão respiratória aguda são as vacinas e que elas diminuem o número de mortes e de hospitalizações.

No cenário brasileiro traçado por Dalcomo, apesar de o país ter começado a vacinar tardiamente (no final de fevereiro de 2021), o Brasil foi ousado em investir no processo de nacionalização da vacina, por meio de duas instituições públicas, Butantã e Oswaldo Cruz, e hoje nós somos um país autônomo na produção de vacina capaz até de promover uma eventual cooperação técnica com os países da América Latina. Para a premiada acadêmica, o problema está na baixa cobertura vacinal pediátrica, que é uma parcela importante e estratégica.

Importância cultural na gestão da crise da pandemia

Apesar de ampla taxa de vacinação na Alemanha, Karin Grau levantou diferenças culturais que impactaram na adesão da campanha. Na região dos Alpes, incluindo Alemanha, Áustria e Suíça, há uma diversidade cultural e de autonomia linguística que proporciona na prática uma autogestão e a uma identidade própria, o que acarreta uma menor taxa de vacinação. A parte do leste da Alemanha é uma herança do regime comunista onde há uma tendência a desconfiar do governo central. Outro aspecto envolve os erros do governo alemão na pandemia. Um deles foi politizar os dados científicos, o que levou à situação em que não se vacinar virou uma posição política, uma declaração ideológica partidária contra o governo.

Dalcomo relatou algo semelhante no Brasil, mas que não vacinar virou um gesto de apoio disfarçado ao governo. Ela explica que o país tem o Programa Nacional de Imunização (PNI), criado na década de 1970 e que tem uma taxa altíssima de adesão. A capilaridade do programa é enorme e muitos pais mostram de forma orgulhosa a caderneta de vacinação do filho completa. No atual governo a retórica foi anti-vacina, mas não prosperou entre os adultos. Entretanto, percebe-se problemas na vacinação pediátrica. O Brasil tem uma cultura pela vacinação fortíssima, ao contrário dos Estados Unidos e parte da Europa onde 35% da população adulta não quer se vacinar. Portanto, nesse atual momento de corte na pandemia é importante resgatar essa confiança da população brasileira na vacinação que vem lá dos tempos da criação do PNI, ou seja, quase 50 anos.

Raquel Araújo relatou um caso curioso na Noruega, onde apesar de existir uma confiança muito grande no governo, houve um receio de se vacinar no início da campanha. Essa resistência tem origem na campanha de vacinação da gripe suína em 2009 quando o governo fez uma forte divulgação a favor da mesma e uma parcela de jovens apresentou casos de AVC (acidente vascular cerebral) como efeito colateral da vacina.

Questões culturais permeiam a liderança, que por sua vez passa por uma adaptação no perfil de quem deseja sobreviver à crise que acometeu o mundo, inclusive empresarial, desde 2020. O pesquisador da Fundação Dom Cabral Paulo Almeida falou sobre um projeto da instituição de ensino que mensurou a capacidade de resiliência das empresas a partir de indicadores de gestão de pessoas, práticas de liderança, governança entre outros. O índice usou a metáfora da empresa como um organismo vivo, fruto das relações orgânicas de pessoas.

Na visão estratégica da Fundação Dom Cabral, há três desafios na gestão da pandemia: (1) receber as pessoas de volta ao trabalho presencial, engajando e energizando o time para o novo normal; (2) repensar os processos de gestão, apresentando novos modelos de desempenho, como adaptações nas metas, desafios e competências necessários ao novo contexto; e (3) redesenhar a organização, planejando e revisando a nova estrutura organizacional, com a diminuição dos níveis hierárquicos.
Para Paulo Almeida, estamos caminhando para empresas mais orgânicas com conexões e redes adaptativas com valores pautados na adaptabilidade, resiliência, agilidade, segurança psicológica, autonomia nas pontas e estrutura mais orgânica. Para ele, as pesquisas apontam que esse deve ser o estilo de liderança e governança do futuro, que tem agilidade decisória e estimula tentativas (sem punição ao erro) o que facilita o ambiente para a inovação.

No site a seguir, é possível que empresas e instituições públicas possam avaliar e testar a própria “imunidade” para uma situação de crise: https://ipt.fdc.org.br

As lições aprendidas ao longo dos dois anos de pandemia

Margareth Dalcomo revelou que foi procurada no início da pandemia sobre como seria possível “privatizar” a vacina. Agora, após dois anos da crise, ela acredita que a classe mais favorecida do Brasil reconhece que o Sistema Único de Saúde (SUS) foi fundamental na vacinação no país. O SUS, com sua capilaridade e confiança, compareceu e mostrou que pode fazer a diferença no país e junto com a produção de vacinas nacionais, permitiu que a população reconhecesse que aqui existe uma cultura científica nacional.

Além disso, Dalcomo espera que os exemplos de solidariedade que surgiram no início da pandemia incentivem uma nova cultura de voluntariado de qualidade. Com o impacto social da pandemia na população brasileira, se espera que a iniciativa privada brasileira crie um comportamento orgânico de contribuição e voluntariado. Karin Grau deseja que essa cultura de voluntariado de qualidade seja algo mundial, e não apenas no Brasil.

Paulo Almeida afirma que, para que a mudança cultural faça sentido, ela tem que entrar no core, no núcleo da sociedade. Paulo, que é português, lembra que o que chamou a atenção dele ao chegar no Brasil foi a pouca conexão entre os empresários e a sociedade civil, as instituições educacionais. E que para um movimento de cultura de voluntariado ganhar robustez é preciso ter “empreendedores morais” e consistência ao longo do tempo.

O pesquisador da Fundação Dom Cabral ainda definiu a estratégia para a liderança das empresas com relação aos impactos da pandemia nesse momento de retomada do trabalho presencial. Para ele, é necessário adotar metodologias ágeis, uma certa agilidade para entender que a liderança tem que ser distribuída, onde o líder já não é mais o herói que tem as respostas todas. É importante compreender que a liderança hoje é um processo adaptativo, no qual não tem problemas em mudar o rumo dos processos, e sim aceitar que o mundo que está em constante mutação. Portanto, não se deve ficar agarrado a antigos modelos mentais e comportamentos. É imperativo encontrar essa flexibilidade no mindset, no jeito de agir e na liderança adaptativa.

Abaixo você confere o encontro completo.

Nossas
Especialidades

Veja nossas principais áreas de atuação